As Várias Faces do Preconceito

“Arielle Cabelo de Vassoura de Bruxa”

Quantas vezes vocês já me viram tratar de assuntos como esse por aqui? 
A única coisa que muda [e que se reinventa, de alguma forma] é o preconceito. Infelizmente, esse é mais um caso de ignorância da sociedade que vivemos, e não será o último. 

Pra quem tá por fora do que aconteceu, foi assim que Faustão, do alto da grandeza de sua audiência e de suas horas no ar, se referiu ao cabelo de uma das dançarinas de Anitta, Arielle Macedo. “Cabelo de Vassoura de Bruxa”.

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Vou confessar pra vocês que é curioso me deparar com essa notícia, quando li há algumas semanas que Faustão teria defendido suas bailarinas de um comentário preconceituoso de uma ex-BBB sobre a profissão. Mais curioso ainda é ver que, na mesma semana, Lupita Nyong’o foi escolhida pela revista people como a mulher mais bonita do mundo. Minha curiosidade só termina quando eu lembro de já ter feito essa pergunta aqui no blog: ONDE NÓS ESTAMOS ERRANDO?

Mesmo sabendo que grande parte desse preconceito nojento e de mal gosto vem de herança da época da escravidão, em que mulheres negras eram declaradamente desmerecidas e desvalorizadas, o que mais me choca é a dificuldade do Brasil em avançar nesse sentido. Tudo que é diferente do padrão de beleza que já conhecemos – Cabelos lisos/traços finos/corpo “perfeito” – não é bonito, não merece atenção, e deve ser motivo de chacota. E esse comportamento asqueroso e comum da sociedade é o mesmo comportamento das grandes mídias. Já falei aqui da falta de interesse das revistas e sites em falar do cabelo crespo, do repúdio das escolas em aceitar o cabelos crespo de crianças, e agora o caso da Adrielle, em rede nacional. Tudo isso trata da mesma coisa: da dificuldade que a sociedade brasileira tem de evoluir, de lidar com qualquer diferença que haja entre um igual. Entendam quando eu digo o quanto o nosso processo de auto-conhecimento é importante: porque além de fazer bem pra nós mesmas, de nos libertarmos de características que não são nossas, é com ele que vamos de encontro à esse pensamento ignorante, retrógrado e racista. 

De acordo com o site Pragmatismo Político, Adrielle diz que se ofendeu sim: 
“Sobre o episódio do Faustão de ontem… fico muito feliz pelo carinho e por de alguma forma vcs me defenderem! Se me ofendi… claro, na hora sim! Mas apelidos é o q mais recebo por aí na rua. Só que eu tenho a minha forma de me manifestar quanto a isso. O cabelo é meu, a vida é minha e me acho linda, e isso é o mais importante! Não me deixo oprimir por nada e nem opinião de ninguém! E se vc se sente bem com isso é assim q deve agir. Enquanto isso estou andando por aí com meu “cabelo de vassoura de bruxa” que eu amo. E que me desculpem as pessoas normais oprimidas pela sociedade. É, eu não sou normal! O racismo sempre vai existir ele se fortifica quando nos sentimos ofendidos . Se estou bem e certa de que eu sou, dana-se a opinião dos outros! Apenas intensificarei minha água oxigenada! Aceita que dói menos!”

O mesmo site afirmou que a postagem da Adrielle foi apagada algum tempo depois. Se houve ofensa, porque a omissão? 
E aí vem aquele nosso pensamento de que já fomos omissos durante tanto tempo… vamos continuar nisso? Em pleno século XXI?

Acho válido o pensamento da Adrielle, em partes. A auto-estima é primordial no nosso caso, pra que nós nos reafirmemos enquanto mulheres que sabem a beleza que tem, e que dão valor a isso. Mas se calar não muda nada. E quando eu falo tomar atitudes, quero dizer que temos a lei do nosso lado. Racismo é crime inafiançável, seja ele o Faustão, a diretora de um colégio que não aceita um aluno, ou um chefe que demite um funcionário por ter cabelo crespo. TODOS, mais dia ou menos dia, devem se conscientizar que desmerecer o outro porque ele é diferente do que você é ou o que você tem como verdade é uma das coisas mais burras do mundo. Se sentir superior e marginalizar o outro por qualquer diferença é algo tão ignorante quanto o Bullying, que tanto se denuncia nos colégios, só que feito por gente adulta. Por isso que é tão grave ficar calado. 
E o mesmo recado serve pra gente: quantos de nós já passamos pelo mesmo que a Adrielle? Nossos filhos? Tá mais do que na hora de termos a resposta na ponta da língua pra essa gente. Não podemos mais tolerar que as nossas características sejam ignoradas. Desde pequena fui ensinada que não sou errada e nem tenho o menor problema em ser negra. Errado é quem discrimina e resolve colocar o negro à margem. Estejam atentos, e mais do que nunca: tenham orgulho do que vêem no espelho. 

 

Todo o carinho, 
Babi

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4 comentários Adicione o seu

  1. Marli Lima Rabelo disse:

    Eu não estou nem aí se gostam ou deixam de gostar de cabelos crespos, eu gosto…
    Eu me inspirei na gata Thalma de Freitas, raspei meu cabelo ano passado, e ainda pedi a opinião dela antes mesmo de faze lo… Estão nascendo cheio de cachos, estou amando…

  2. kenya mello disse:

    ‪#‎tiraomeucabelodasuabocaimunda‬ ‪#‎calabocafaustão‬ ‪#‎racistasnãopassarão‬

  3. Mariana Gomes disse:

    Eu desconfio que a mensagem da Adrielle tenha realmente sido retirada para não causar um grande alarde. O que é uma pena… Porque se esse caso fosse levado a frente, com certeza abriria uma discussão enorme sobre o preconceito enraizado no nosso país, ainda que corresse o risco de ser banalizada pela mídia em geral. Ao contrário disso, tivemos só a resposta do Faustão no último domingo…. E depois vem gente me dizer, com toda a convicção do mundo, que no Brasil, meu país, não existe preconceito racial.

    1. Tem toda razão, Mariana!

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