Educação Para os Educadores?

Oi, gente!

Estamos polemizando muito ultimamente, não? É porque essa gente ignorante não tem dado trela.
Depois de me chocar com a reportagem do fantástico sobre as escovas progressivas, essa semana pipocaram duas reportagens que conseguiram me estarrecer mais do que a anterior: crianças estão sofrendo retaliação nas escolas por ter cabelo crespo natural – nessa semana, um caso Brasil e outra nos EUA (Não viu? Clica aqui e aqui).
E aí é que vem a minha pergunta: se essas pessoas que, de certa forma, são formadores de opinião [principalmente os educadores infantis], o que acontece com a cabeça dessas crianças?

Vanessa VanDyke, no EUA: ou muda "o estilo" ou não estuda
Vanessa VanDyke, no EUA: ou muda “o estilo” ou não estuda

estudate

Eu não sei exatamente o que acontece com uma diretoria escolar quando propõe isso, partindo do princípio de que escola é um estabelecimento que deveria ensinar os alunos a conviver com as diferenças. E se o preconceito já está na formação da personalidade de um ser humano, ele vai crescer ignorante e se tornar um adulto ignorante. E assim mantemos o status da sociedade, que marginaliza e segrega? Não. É aí que entra o papel dos pais de não permitir, em hipótese alguma, que isso aconteça com seus filhos. O tipo de cabelo que seu filho tem não atrapalha em nada a educação dele, mas ele crescer deprimido e inferiorizado por ter sofrido preconceito nesse nível, provavelmente sim. Não é só exigir o direito do seu filho de estudar onde quiser, mas também de impedir que pessoas tão mentalmente limitadas influenciem e atrapalhem o crescimento saudável dessas crianças.

Tenho um amigo, o Angelo Morse, que trabalha junto aos professores em uma escola no RJ. Ele é negro, de Black Power, tem filha mestiça e dá a opinião dele:

Luana, a mãe, Analua, a pequena, e Angelo
Luana, a mãe, Analua, a pequena, e Angelo

Você é educador infantil, negro de black Power. Já encarou problema com isso, na escola ou na vida pessoal?

Angelo: Impressionantemente, em nossa escola ainda não tive problema. Não que eu percebesse. Os pais aparentam levar mais na brincadeira até porque as crianças curtem meu cabelo. Mas já tive problema sim num antigo emprego que o patrão disse na minha cara que cabelo black não me dava um aspecto de limpo.

Sua filha é mestiça, de cabelo Crespo natural. Ela já enfrentou problemas com isso?

A: Bom… Ela tem apenas cinco anos e passou toda educação infantil na nossa escola, o que já muda um pouco. Ano

AnaLua e seu cabelão LIN-DO!
AnaLua e seu cabelão LIN-DO!

que vem sim, ela vai para uma escola maior, e espero que não venha a ter esse tipo de problemas. Pelo bem dela e da escola. Ela é de classe média e claramente preferia ter o cabelo liso igual o das amigas, apesar de ele ser elogiado por todos. Já chorou várias vezes, para meu desespero. É uma luta para deixá-lo solto e ela usa a desculpa que é uma outra luta para penteá-lo. Só libera as madeixas quando quer me agradar.

Você tem alguma pauta didática que já tenha passado pros seus alunos ou pra sua filha, em relação à identidade?

A: Sempre. Na escola uma vez, pedimos para as crianças, como trabalho de casa, que trouxessem recorte de jornais e revistas de pessoas das diferentes raças do Brasil. Tenta fazer isso! A dificuldade que se tem de achar fotos de negros em revistas é impressionante! E isso foi exatamente o que os alunos perceberam, só tinha algumas fotos de atores, jogadores de futebol famosos e do Obama, enquanto imagens de famílias brancas inteiras, em vários tipos de atividades e lazer preenchiam 90% do mural. De índio tinha uma única foto e mesmo assim era um desenho. Em nossa escola, 50% dos funcionários são negros, desde a cozinheira, passando por professoras, até a direção. Isso é muito raro! Ajuda no sentido de familiarização das crianças com a raça negra e suas diferenças da cor da pele e do cabelo. Nessa idade elas ainda são puras, a curiosidade é ingênua e seria a mesma ser fossem pessoas azuis ou verdes. Na morte do Mandela fizemos uma grande homenagem e eu mesmo fui de sala em sala, explicando porque aquele homem era tão importante para o mundo. Foi difícil para as crianças entenderem que pessoas são discriminadas apenas pela cor da pele. Você tem que ser muito sensível para lidar com o assunto. Já com a minha filha, eu e a mãe dela somos muito mais direto ao falarmos de racismo. Porque as crianças podem não ter a “maldade”, mas vivem na mesma sociedade que nós e reparam sim que os negros são os pobres, os bandidos e aqueles que servem aos brancos. As empregadas retirando a mesa não passam despercebidas por elas. Por isso que é necessário também apontar para outros negros, como a atriz de cabelos crespos, a médica, a jornalista, a bailarina, a estátua, o negro na praia, em festas, sentado em restaurantes, etc. É uma missão difícil fazer com que negros se reconheçam e tenham dignidade numa sociedade em que só estão inseridos e evidentes nas classes mais precárias. É explicar sempre para minha filha que ela é linda e que seu cabelo não precisa ser liso e loiro igual a das princesas. Essa cultura das princesas, inclusive, é um dos desserviços ao assunto.

O que vc acha que precisa mudar na educação das crianças negras – nos colégios e na relação com os pais – pra que eles saibam enfrentar uma sociedade preconceituosa?

A: Difícil. Eu que sou adulto ainda me machuco. Penso que o primordial seria que a sociedade brasileira largasse a máscara de madeira e reconhecesse de uma vez por todas o nosso racismo. O óbvio é sempre que se invista mais em educação e na qualificação de professores. Deveríamos ser inseridos desde jovens na cultura negra, aprendermos exatamente como se deu a escravidão e a “abolição” que culminou na exclusão dos negros da nossa sociedade até

Angelo e Analua
Angelo e Analua

os dias de hoje, entendermos a extrema importância das cotas raciais e que tenhamos penas mais severas para qualquer tipo de preconceito. De todos, o racismo é o crime mais perfeito do mundo: Nunca existe e a culpa é sempre da vítima. A vergonha de assumir que você ou seu filho sofreu uma ação racista é compreensível, pois é muito difícil aceitar que somos vistos como um ser inferior. O que temos que entender é que fingir que não aconteceu em prol de uma suposta proteção, só alimenta ainda mais o problema. Presenciou racismo? Denuncie! Grite! Lute! A única forma dos nossos filhos, negros ou brancos, aprenderem como se agir ou se defender de uma sociedade tão preconceituosa, será vendo a atitude dos adultos em relação a ela. Se não, será sempre essa luta injusta contra um monstro de fumaça que te sufoca e nunca deixa rastro.

Uma coisa que o Angelo falou e que é MUITO importante pros pais e pros educadores: nós PRECISAMOS ensinar as crianças a conviver com a cultura negra, o que muita gente tenta impedir até hoje. É por isso que tanta gente tem preconceito com tanta coisa que deriva da cultura negra (religião principalmente), e não sabe nem o porquê. justamente porque não mudamos os nossos hábitos desde que éramos uma sociedade escravocrata. Não tá na hora de começar a raciociocinar? Até porque, por mais que queiram esconder de nós, 80% de nossa descedência é negra. E isso é vergonha?

REPENSEM!
Todo o carinho,
Babi

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