As Duquesas e Seus Turbantes – Parte I

Oi, gente!

Olha, foi com um prazer imeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenso que, nessa última terça-feira, dia 03/09, conheci e tive uma longa, prazerosa e descontraída conversa com a Luciana e a Carmen, a super dupla que assina o Duquesas Turbantes.
Eu as vi a primeira vez quando visitei uma roda de samba chamada “Terreiro de Crioulo”, um dos eventos que a marca participa e vende seu trabalho. Fiquei impressionada com a rapidez, facilidade e simpatia das meninas. E o principal, que me levou a chamar as duas pra essa conversa, é que elas tem o mesmo objetivo que eu em relação aos turbantes: desmistificar e acabar com o estereótipo do turbante como um significado, e tratá-lo simplesmente como um acessório de moda urbana, sem desrespeitar sua origem histórica e sua ancestralidade.

Duquesas Turbante-19
Luciana (esq.) e Carmen (dir.): O turbante como acessório de moda urbana, sem estereótipos e acessível à todas as classes

Assim que cheguei, Raquel, minha super amiga e fotógrafa da nossa conversa já estava super à vontade com as meninas. E o assunto não podia ser outro: CABELOS! O legal é que as duas tem cabelos crespos, mas bem diferentes um do outro – a Luciana tem cabelo crespo tipo 2, e a Carmen tem o cabelo bem mais crespo, do tipo 4. Mas o amor pelos turbantes é tanto que as vezes elas acabam esquecendo do cabelo e saindo com o acessório pra qualquer lugar. O turbante é tão natural como se fosse um brinco ou uma pulseira.

Babi: Como começou a idéia de lançar o Duquesas?
Luciana: Eu comecei a usar turbantes por necessidade. Minha mãe teve câncer de mama e eu precisava apoiá-la. Houve uma época da vida dela em que ela ficou careca, e comecei a pesquisar várias amarrações pra que ela pudesse se sentir melhor. Nessa época, Carmen e eu já éramos amigas e ela passou por isso tudo comigo. Ela trouxe pra mim a cultura do turbante através da ancestralidade, da cultura que veio com ela. A partir de então, começamos a usar o turbante no cotidiano.

Babi: As pessoas estranhavam muito, não é?
Luciana: Demais. Eu estudei numa faculdade de maioria branca, as pessoas não tinham o menor conhecimento de turbante. E como minha pele é clara, eu enfrentava preconceito duas vezes. Estudava estética com mulheres que só queriam saber de química o tempo todo, e eu estava muito mais focada pro lado da imagem pessoal. Com o tempo, as pessoas que conviviam comigo foram acostumando, mas eu era uma pessoa só, no meio de várias que ainda não usavam. Quando a Carmen chegava numa roda de samba com turbante, era apontada, as pessoas cochichavam, olhavam. Apesar disso tudo, nós nunca nos preocupamos. Sempre tivemos os nossos tecidos pra adequar com as nossas roupas. Vestido, blusa, toalha de mesa, até capinha de bujão…

Babi: Até capinha de bujão? Nossa! Como vocês fizeram isso? Vocês cortavam?
Luciana: Sim, tem vários vestidos meus que só sobrou a parte de cima…
Carmen: Não, teve um que você não cortou e deu um axé danado!
Duquesas Turbante-20Luciana: Enfim, a gente se arrumava pra sair como qualquer pessoa faz pra se arrumar normalmente, e isso passou a ser o nosso diferencial. Quando a gente chegava em qualquer lugar sem o turbante, a gente perdia nossa identidade. E chegou a um ponto em que as pessoas começaram cobrar. “Me ensina a fazer?”, “Como que eu faço essa amarração?”, “Faz em mim?”. Nesse tempo nós já tínhamos um projeto de roda de samba na baixada fluminense, o que ainda não existia. Queríamos fazer uma feira cultural em Duque de Caxias – o Duquesas do Samba, que foi um projeto todo idealizado por nós, e que seria executado por mulheres. Não só mulheres negras, mas mulheres empreendedoras, criativas, que tem visão. Por causa da falta de tempo, família, filhos, a gente teve que deixar esse projeto quieto por um tempo, por um ano.

Babi: E há quanto tempo isso aconteceu?
Carmen: Há uns quatro anos atrás. Isso aconteceu de 2009 pra 2010. Mas não deixamos quieto totalmente.
Luciana: A gente ficou confabulando, durante esse tempo, o que faria pra dar continuidade a esse nome que já tinha dado certo. Foi nesse momento que a gente parou e pensou em fazer uma experiência com os turbantes, que eram a nossa referência.

Babi: E nesse momento vocês já sabiam de várias amarrações…
Luciana: Sim, nós já tínhamos pesquisado muito, estudado muito. Quando lançamos o projeto, foi um sucesso. Nesse primeiro evento, nós conseguimos colocar quase todas as mulheres de turbante.

Carmen: E esse primeiro evento aconteceu no dia internacional da mulher, o que foi muito marcante pra nós.
Luciana: nós sempre estivemos envolvidas com cultura negra, o que é muito bom, mas queríamos e conseguimos lançar um projeto que fosse pra mulher negra e pra branca, que fosse popular, que penetrasse em qualquer ambiente, que tratasse o turbante como moda urbana.
Carmen: A verdade é que nós não queremos lançar o turbante, a moda afro como uma cultura formal. Nós queremos tratar de uma forma natural. Turbante pra ir ao mercado, buscar o filho no colégio. A cultura afro tem que ser vista de uma forma natural, e não só pra ser usada numa roda de samba ou qualquer outro lugar em que só se agregam valores negros…

Babi: … Acabar com o estereótipo do turbante pra que todo mundo possa usar, certo? O que eu acho engraçado é que hoje em dia você vê turbante em tantos editoriais de moda, nas passarelas, e ninguém acha esquisito. Mas se você for usar na rua…
Carmen: Mas infelizmente, ainda não são todas as classes que conseguem absorver isso. Nós queríamos envolver tudo: a cultura afroDuquesas Turbante-22 com a moda urbana, de uma forma natural. Porque até hoje tem muito negro que não conhece sua própria cultura. A gente chega de mansinho, com um tecido qualquer, e mostra a identidade que até hoje ele não conhecia. Você não precisa comprar um tecido africano caríssimo pra usar turbante.
Luciana: As vezes nós chegamos em lugares mais frios e as mulheres pedem pra gente fazer amarração com lenço, cachecol. E a resposta do público é sempre ótima. Esse espanto, essa admiração que a gente foi causando, foi se espalhando no boca-a-boca e a gente se viu pressionada a fazer algo nesse sentido. E nós fizemos, juntamos forças, pra quebrar medo, sem se importar com o que a sociedade poderia pensar.

Babi: Uma coisa legal de vocês é que vocês são itinerantes, certo? Não tem um lugar certo, uma loja fixa.
Carmen: Não. Nossa área de atuação é em eventos, na maioria rodas de samba, bailes blacks.

Babi: E quando vocês estão nesses eventos, como é o público que procura vocês?
Carmen: na sua maioria, mulheres brancas. Uns 10% de homens que levam suas mulheres pra usar turbante.
Babi: É engraçado ver isso em eventos em que a maioria são mulheres negras!
Carmen: o problema é que tem muita menina que tem medo de usar turbante e as pessoas a relacionarem com religião ou algo do tipo. É lógico que o turbante representa uma cultura, uma ancestralidade, mas hoje em dia ele nada mais é do que um acessório pra gente se embelezar! Seja mulher negra ou branca.

Trocamos idéia durante tanto tempo que nem vimos o tempo passar. Experimentei tecidos com texturas diferentes, com amarrações diferentes e de cara digo pra vocês: não é difícil! É lógico que, de cara, a gente não vai ter a prática que as Duquesas tem. Quem quiser conhecer mais o liiiindo trabalho das meninas, é só visitar a Fanpage das meninas e entrar em contato.

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Tem amarrações pra quem tá começando agora e pra quem é nível elevado. Maaaaaaas, isso a gente vai ver no próximo post, com passo-a-passo em vídeo! AGUARDEM!

Espero que, como eu, vocês tenham ADORADO!
Não esqueçam que esse post continua!

Todo o carinho,
Babi

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7 comentários Adicione o seu

  1. Amei a matéria, parabéns. Estou ansiosa para o vídeo e aprender passo a passo.

    1. Que bom que vc gostou, amiga!

  2. Rachel Vianna disse:

    Republicou isso em Cotidianoe comentado:
    Olá, pessoal!
    Na terça-feira a Babi, do blog Blacks Bárbaros, me chamou para fazer as fotos das meninas do Duquesas Turbantes e gravar um vídeo com um tutorial. O papo foi super descontraído, regado a uma cervejinha gelada no bairro da Lapa. Nem preciso dizer que amei conhecer a Carmen e a Luciana e a história por trás do uso do turbante.
    Espero que vocês gostem do post e depois tem o tutorial em vídeo.
    Beijos,
    Rachel.

  3. Rachel Vianna disse:

    Amei demais!

    1. Telma Pereira disse:

      AMO O TRABALHO DAS DUQUESAS!!!!! SUCESSO 0/

  4. silvia da conceição coelho veira disse:

    Estou muito feliz pelas minhas amigas Lú e Carmem, esse trabalho delas é necessário pra sociedade preconceituosa que vivemos, quando dei por mim, eu já estava super hiper mega envolvida com os turbantes, fiz, amei e levei pro bairro onde moro, onde todas ficaram loucas e eu feliz da vida fui divulgando e apresentando pra minha grande família e amigas as quais todas passaram a fazer parte das mulheres de atitudes de caxias…
    enfim parabéns minhas amigas. bjus Bia…
    parabéns a vc Babi pela reportagem e pelo oportunidade dada as minhas curicas.

  5. disse:

    Amei tudo que vi me faz ser mais negra

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